A luta contra as reformas neoliberais
na Grécia
O desenrolar da crise econômica financeira iniciada em 2008 nos Estados Unidos afetou em cheio os países da União Europeia (UE). Como já havíamos indicado, a momentânea quebra de bancos e empresas enredadas no gigantesco e complexo mercado financeiro foi devidamente socorrida pelos Estados. Por outro lado, esta crise tem demonstrado os limites da democracia liberal e do modelo social democrata. De maneira geral, esse modelo propõe ao proletariado a emancipação do capitalismo, emancipando o Estado do capitalismo. Esse projeto baseia-se na ideia de que o proletariado pode se libertar de sua exploração e dominação pelo capital conquistando o poder do Estado, tomando esse poder da burguesia. O Estado é apresentado como via obrigatória e inevitável de emancipação do proletariado. A variante reformista tenta conquistar o poder de Estado pela via legal (eleitoral) e seu exercício é efetuado em um quadro institucional burguês (parlamentar).
Dentro do contexto de resistência grandes parcelas dos trabalhadores procuravam e contavam com apoio dos partidos parlamentares de esquerda, como aqueles que conseguiriam manter seus benefícios. Este modelo social democrata consagrou a experiência do movimento social na últimas décadas. Entretanto, tem demonstrado com a recente crise que todos os partidos que participam do sistema representativo burguês não só se adaptaram as suas regras, como aderiram as propostas neoliberais da classe dominante.
Neste cenário, os governos de todos estes países têm seguido a risca medidas que penalizam os trabalhadores em benefício da burguesia, sobretudo de sua fração financeira. Independente do partido que esteja a frente do governo, as chamadas medidas de austeridade (arrocho salarial e desemprego) estão sendo aprovadas. Os protestos populares são ignorados solenemente. A máscara da democracia liberal vai caindo e a crise do modelo social democrata, fundamentalmente em sua vertente reformista, se amplia ainda mais. Novamente para assegurar os lucros dos bancos, a classe burguesa avança sobre conquistas dos trabalhadores europeus de mãos dadas com Todos os partidos políticos.
Na Europa, os trabalhadores enfrentam a destruição da seguridade social do Welfare State. Os objetivos comuns são: alongar o período de contribuição, aumentar a idade para a aposentadoria e reduzir rendimentos. A crise econômica financeira só deixou isto mais evidente. A ação da classe dominante contra os rendimentos e a proteção social dos trabalhadores retornou com mais folego. Agora os países periféricos da Zona do Euro, como Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, são colocados na parede para que direcionem recursos para o pagamentos de bancos franceses e alemães, como o BNP Paribas, o Crédit agricole e a Société Générale.
1 - O Caso Grego
No momento o caso da Grécia é o mais preocupante para os agentes do mercado financeiro e Paris e Berlim. Isso porque a moratória da dívida afetaria os bancos destes países e agravaria a crise por toda Europa. Para conseguir empréstimos para pagamento de títulos da sua dívida pública, ampliada pelas medidas neoliberais, e de empréstimos, inclusive do setor privado, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu exigiram o aumento de impostos, privatizações, corte de benefícios sociais e demissões no setor estatal.
O governo socialista de George Papandreu, do PASOK, não teve dúvidas em atender a burguesia. Por sua vez os protestos massivos e combativos do movimento social grego aumentaram. Seguidas greves gerais foram convocadas, paralisando o país. Para se aprovar as medidas foi necessário o cerco do parlamento para impedir que o povo se aproximasse. Conflitos na praça syntagma, em Atenas, e por várias cidades gregas entre manifestantes e policiais mostravam o tom de indignação e mobilização dos trabalhadores, desempregados, donas de casas e estudantes. Os grupos organizados da esquerda extra-parlamentar, anarquistas e os chamados "Aganaktismeni" (Em Cólera) estão entre os principais participantes que contestam a própria democracia liberal. A Greve Geral tem sido o principal instrumento de luta dos trabalhadores gregos.
2 - O caso espanhol
No caso da Espanha, o governo do Partido Socialista Operária da Espanha (PSOE) também implementou as famosas medidas de austeridade. Protestos massivos e diários tomaram Espanha durante o mesmo de maio. Estudantes e jovens desempregados passaram a ocupar as praças e ruas de diversas capitais em protesto contra as medidas do governo. Retomaram o discurso do movimento social argentino do inicio da década: "que se vão todos". Ficaram conhecidos como Indignados, 15-M e 19-J, se organizaram através de assembleias locais surgidas com o aumento das mobilizações na tentativa de conquistar autonomia política e o poder decisório.
Assim, fica claro que passa a ser questionado a própria democracia liberal, uma vez que parlamentares se solidarizam com a burguesia e atacam as bases do Welfare State, desnudando o sistema representativo. Trabalhadores, estudantes e desempregados ampliam sua percepção de que não conseguem influenciar as decisões políticas, tomadas cada vez mais por um grupo restrito, vinculado a burguesia em suas diversas frações. Agrava-se também a crise do modelo social democrata reformista que sempre apostou nas reivindicações parlamentares e com isso muitas pessoas comuns e dos movimentos sociais são incapazes, no momento imediato, de responderam as medidas de aumento da exploração e da dominação capitalista.
Temos neste sentido um agravamento da crise social europeia, uma vez que as medidas tomadas pela classe dominante só tem aprofundando a crise do regime de acumulação com base no capital fictício. Por sua vez, há uma crise de movimento político e social europeu, ainda preso a experiência de décadas do modelo social-democrata que aprofunda sua crise ao preferir a manutenção da democracia liberal e a exploração e dominação burguesa do que propor um projeto de transformação revolucionária. Entretanto, estudantes, trabalhadores, desempregados, imigrantes e militantes tem procurado na própria luta pautar novamente a autonomia política e econômica dos trabalhadores. Neste sentido, o movimento grego parece mais avançado que os "indignados" espanhol, este gestado fundamentalmente no calor das últimas mobilizações contras as reformas neoliberais. Entretanto, a luta pela poder volta a ser o ponto da questão e o instrumento da greve geral volta a ter papel preponderante nas mobilizações.