A vitória da Dilma/PT nas eleições presidenciais de 2010 vai condicionar em parte os cenários da luta de classes no Brasil nos próximos anos. Outro fator central são os efeitos restritivos da crise econômica mundial. As tendências (como já estamos apontando em nossas análises desde o nosso IV Congresso) é que o aprofundamento da crise diminua a margem de manobra do Governo Dilma/PT, criando mais elementos de choque com a classe trabalhadora.
O início do ano de 2011 tem mostrado exatamente isso. A disputa em termos da fixação do irrisório “salário” mínimo, combinado com o anúncio da restrição dos gastos com funcionalismo público indicam a tendência geral de contenção dos salários e do consumo. O arrocho salarial, praticado em termos globais com a restrição do salário mínimo e no plano setorial com a restrição do gasto com o funcionalismo público, é uma ferramenta histórica da burguesia.
Em outro plano, a emblemática aprovação do início das obras da Usina de Belo Monte indica a prioridade aos projetos “desenvolvimentistas” – de expansão da política energética subordinada aos interesses do agronegócio e do capital industrial e financeiro. Além do caso de Belo Monte, devemos lembrar ainda da Transposição do rio São Francisco. Ou seja, os gastos do Estado tenderão a se manter naquilo que eles forem imprescindíveis à acumulação de capital. Mas esse período inicial do Governo Dilma anuncia alguns dos fatores potenciais para o desgaste do bloco histórico dirigido pelo PT, que se fortaleceu desde 2007.
A crise mundial está se manifestando em termos globais com a inflação, especialmente a inflação de alimentos. No caso do Brasil, a política de arrocho salarial se combina com os projetos desenvolvimentistas que irão absorver grande parte dos recursos do Estado. Por outro lado, esses projetos, voltados para um modelo de política energética e econômica que destroem as bases da produção de subsistência no campo, favorecendo a agricultura comercial, tendem a pressionar no nível interno a inflação que já começa a se intensificar.
Dessa maneira, as opções econômicas do Governo Lula, que permitiram que ele manobrasse bem as contradições dentro do movimento sindical e popular, através da CUT, CTB e outras organizações, tendem a diminuir significativamente no Governo Dilma. Um cenário possível é exatamente o agravamento da crise econômica e a redução dos instrumentos de concessão aos trabalhadores e sua cooptação. Com a redução dessa margem de manobra estrutural, as organizações governistas e pelegas tendem a ficar cada vez mais no meio do fogo cruzado das demandas econômicas e sociais das bases contra sua política de desmobilização.
Mas como fazer com que a classe trabalhadora, ao invés de vítima dessa contradição, se torne ativa na luta pelos seus interesses econômicos e políticos? Isso porque a mera contradição estrutural entre a política econômica de arrocho combinada com os efeitos da crise, por mais que desgaste o governo e as direções pelegas, não resolvem o problema da desmobilização e falta de organização da classe trabalhadora.
O problema é que toda a política dos setores dirigentes da classe trabalhadora no Brasil (CUT, CTB, Confederações e demais entidades secundárias) restringe a política dos trabalhadores à pequena política. O que é a pequena política? A pequena política é aquela restrita aos marcos delimitados pela dominação historicamente constituída, que se resume à luta pelo controle do Governo e dos cargos legislativos, executivos e administrativos de Estado ou associações secundárias, ou ainda aspectos de política econômica ou demais políticas públicas.
A “grande política” é a política que visa confrontar os fundamentos reais de poder e as relações de desigualdade de classes. Ou seja, é uma política direcionada para mudar não a política econômica, mas os fundamentos do poder econômico. Não os cargos do Governo, mas a forma de governo e quem exerce o poder.
A política reformista praticada no Brasil está toda ela dentro da “pequena política”. E como estes setores dirigem as organizações da classe trabalhadora, esta classe é arrastada à pequena política. A política reformista é ao mesmo tempo uma pequena política praticada em escala nacional. E é por isso que ela sempre é derrotada quando se defronta com a grande política burguesa. Na realidade, a pequena política reformista é usada para os fins determinados para a grande política burguesa.
E o que é a política revolucionária? A política revolucionária necessariamente é também a grande política. Mas no quadro do Brasil em que a classe trabalhadora e sua ação política nacional são dominadas – ou tragadas – pela pequena política, temos a curiosa situação em que necessariamente a grande política – do ponto de vista revolucionário – é uma política “local”. Local no sentido em que ela hoje é praticada em pequena escala.
A grande política dos revolucionários no cenário dos próximos anos será feita no plano micro, local. A pequena política da burguesia e dos reformistas é feita em nível nacional, mas sempre restringindo a política a pequenas disputas sem importância. E a grande política da burguesia é feita por uma minoria em todos os níveis, nacional e internacional. É essa grande política burguesa que precisa ser combatida, e ela se manifesta em quase todos os conflitos locais. Dois componentes são fundamentais dessa política: a redução da massa salarial global, para garantir a taxa de lucro; a desarticulação dirigida da organização dos trabalhadores, sua tutela, para impedir que a luta de classe ocorra em escala nacional e internacional.
Qual a tarefa dos revolucionários? Transformar e enfrentar toda questão local (de salários, de direitos, de acesso a terra, moradia e etc.) como uma questão de grande política As grandes questões da classe trabalhadora devem ser assim colocadas nas questões locais. A tática dos revolucionários deve seguir a máxima do grande general Vietnamita (que derrotou os japoneses, os franceses e os norte-americanos), Nguyen Giap: “transformar as múltiplas pequenas vitórias numa grande vitória”.
A tática no atual cenário, de desmobilização da classe, deve ser a de multiplicar as lutas de tipo grande-política no plano local, ou seja, retomar as lutas salariais e econômicas dos trabalhadores e a greve geral como mecanismo de paralisar a política macroeconômica hegemônica. Retirar a tutela organizativa burguesa e sua hegemonia ideológica. As pequenas vitórias locais (no campo e na cidade, nas fábricas e universidades e etc.) multiplicando-se tenderão a preparar as grandes vitórias.
O cenário da luta de classes assim é contraditório. Há um Governo Dilma/PT que saiu relativamente fortalecido das eleições presidenciais (relativamente porque as abstenções e votos nulos mostraram a falta de credibilidade do sistema político). Ao mesmo tempo temos um cenário econômico não tão favorável, mas que por si só não implica no desmonte da hegemonia da direção reformista-pelega no movimento de massas. E por fim, um aumento das pressões objetivas sobre a classe trabalhadora, que só tendem a aumentar.
Assim, nos resta a tarefa: nem capitulação, nem imobilismo. Fazer um, dois, três, muitos focos de resistência de massas, construir e fortalecer um fórum nacional de oposições sindicais, estudantis e populares. Fazer as lutas locais visando à preparação das greves gerais e a construção de uma corrente classista e internacionalista, embrião da reconstrução da Associação Internacional dos Trabalhadores.